Matheus Loures

Externando aquilo que me distrai

A Maldita Gravidade Gospel

2 Comentários

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Glossário Zuringuiano (para entender o texto):

Buteco – Esfera pública de nossa sociedade. São os lugares nos quais os mais variados grupos se encontram, conversam e convivem juntos. Escolas, faculdades, lanchonetes/restaurantes, filas de banco, festas, pontos de ônibus, eventos culturais/esportivos, academias, espaços políticos etc… Buteco não é sinônimo de bar, mas os bares geralmente são um tipo de buteco :p

Infinito Particular – Clara referência à música de Marisa Monte. É a bagagem cultural de cada pessoa. Se expressa no tanto que ela conhece o mundo criado por Deus e explora suas possibilidades.

Maldita Gravidade Gospel (MGG)Força centrípeta, que puxa as pessoas para o centro das igrejas (no sentindo meramente institucional), fazendo-as orbitarem no “planeta igrejeiro” e impedindo que os cristãos respirem outros ares. É a tendência de só pensar e falar no povo da igreja, nas picuinhas da igreja, nas programações da igreja.

Dessalinização da FéClara referência a Mt 5 (Vós sóis o sal da Terra). É quando em contato com o buteco (esfera pública) preferimos relativizar algum princípio bíblico em prol de não gerar atrito com os demais butequeiros. A Dessalinização da Fé costuma andar junta com uma certa frustação com a igreja.

Agora sim, vamos lá…

Se tem uma coisa que sempre me deixou agoniado é andar só no meio de crente. Aquela falação sobre as coisas do dia-a-dia da igreja, sobre as programações que satisfazem as massas e, principalmente, sobre a vida sentimental do povo que a frequenta. Acho que não serviria para morar em base missionária e nem tampouco para trabalhar full-time dentro do espaço físico de igrejas, pois isso me provoca uma “claustrofobia existencial”. Nessas horas me vem a memória os momentos de buteco e concluo que o infinito particular dos não crentes tendem a ser mais desenvolvido. De modo geral, falam com mais propriedade sobre cultura e política, já viveram mais coisa na vida. Conhecemos e repetimos, roboticamente, passagens como Luz do Mundo e Sal da Terra, exaltamos o significado de “igreja” (ecclésia), como assembleia dos chamados para fora, mas eis que surge a Maldita Gravidade Gospel e se manifesta como inimiga de nossa fé.

Afinal o que nos mantem tão presos no nosso gueto igrejeiro? A comodidade, a falta de tempo/prioridade e a “guerra espiritual” certamente influenciam. A sequencia é tipo assim, é mais seguro conviver com pessoas que pensam parecido, que não vão nos confrontar e achar que a gente tá falano chinês o tempo todo. Viver isso é um mandamento bíblico (1Pe 2) e por ser difícil nossa carne (no sentido de tender ao pecado) vai sempre nos influenciar para não frequentar os butecos. Finalmente, para além da carne existe o Demônio que não quer perder domínio sobre o buteco. Fazemos bem em orar todo dia: “Pai que teu Espírito me leve a exalar o perfume de Cristo e me use para refletir sua luz nos butecos que frequentarei neste dia, Amem” . Uma das maiores armas da Maldita Gravidade Gospel é o excesso de atividades da igrejas, como bem já dizia o sábio Vovô Sttot. Vários cultos, reuniões de ministérios, oração, mutirões para melhorias do espaço físico, bazar do grupo de levitas mirins, células etc… Tudo acaba com o tempo do crente para convívio com o resto da sociedade… Bem pelo menos assim o crente não peca né? Ou melhor, pelo menos assim ele não comete aqueles “pecados mais cabeludos”.

( Ah, eu ia escrever sobre como a MGG atua no academicismo cristão com nossos teólogos isolados em suas torres de marfim, muitas vezes escrevendo sobre missionalidade… mas não tenho espaço aqui!)

Muitas vezes ficamos tão presos no pequeno “planeta igreja” que cultivamos um infinito particular entendiante. Não conhecemos a imensidão de mundo criado por Deus, nem suas potencialidades. Sem uma boa compreensão entre fé e cultura não exploramos as matérias primas que Deus colocou em seu jardim. Entretanto, os artistas, os ecologistas, os cientistas e os filósofos o fazem. Estes tem desvendados certos segredos plantados na criação (graça comum), algo como um “sorriso escondido de Deus”*. Mas nós estamos com feitiço da cegueira pra “ler” o mundo de fora da igreja. Quando presencio a maioria das manifestações dos crentes nos butecos, já fico com frio na barriga e com medo de passar “vergonha alheia com o que será dito”. Nessa ultimas eleições, um grande exemplo disso eram os post de facebook: “não entendo cristão que vota no PT”.*¹

Quem defende a igrejização do crente, teme que ele sofra a dessalinização da fé. Sim, esse risco é constante, pois nos butecos da vida é tentador sacrificarmos algum princípio bíblico para ganhar a aceitação das pessoas. Em boa parte das vezes a dessalinização da fé é temperada com pitadas de frustração com a igreja. Feridas reais, mas não saradas, protegidas com o “band-aid” do rancor. O antídoto para tudo isso é o fortalecimento de nossa Fé e relação com Deus. Para isso, a melhor ferramenta é a intensa amizade com outros cristãos, aquela que verdadeiramente nos aproxima dele e nos encoraja a viver o Reino, que o povo do buteco não conhece. Claro que é um problema só existir relacionamentos “pra dentro”, mas temos de aprofundar nossa comunhão EM CRISTO, fortalecer mutuamente a Fé. Afinal, é isso que nos capacita para encarar os desafios da butecagem. Tudo muito tênue e desafiador, mas você quer vida fácil? Então vire mais um bêbado de balada ou mera ovelha massificada, porém não leve a sério a identidade e a missão de Cristo, a “santa mundanidade” segundo Sttot.

Ser cristão é viver constantemente esta tensão de habitar no mundo criado por Deus, mas manchado pela queda. É junto com todos os seres humanos contemplar a “Graça Comum”, mas sentir-se responsável por anunciar e assumir as consequências da “Graça Específica”, a espada (Mt 10:34). É a dança entre o andar com todos, mas ser separado para Deus; entre o misturar-se, mas não diluir-se. É romper a Maldita Gravidade Gospel para habitar nos butecos da vida, mas sempre com aquela certeza que vivemos algo que só quem experimentou Cristo vive. É encarar este desafio, com o auxílio do Espírito, para demonstrar essa exclusividade de forma amorosa e humilde. Negar a tensão, para qualquer um dos lados, é viver um cristianismo raquítico.

* Título de um livro de John Piper

*¹  Tenho inúmeras críticas ao PT, mas considero a afirmação ingênua por achar que ela traduzia a disputa como se o segundo turno fosse entre o 45, azul, de Deus e o 13, vermelho, do Diabo. Entendo que a melhor comparação teológica para o segundo turno fosse o 45 de Mamom vs o 13 de Baal. Como o foco do texto não é política vou parar por aqui…

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2 pensamentos sobre “A Maldita Gravidade Gospel

  1. Tenho vivido isto ultimamente. Amo estar junto com meus irmãos, e compartilhar nosso dia a dia, coisas que aconteceram na semana, etc. Mas às vezes, ao invés nos edificarmos mutualmente para encararmos os desafios da butecagem, acontece isso mesmo. Fica aquela conversa sobre como trazer mais pessoas para a igreja, técnicas para os membros aparecerem mais, etc. Isto tudo não significa uma proclamação do evangelho (evangelismo) necessariamente.

    De fato, esta MGG é estimulada principalmente pelos líderes. Pois sempre deixam transparecer (dizendo indiretamente) que o nível de comunhão com Deus é medido também pela sua assiduidade nas atividades da igreja.

    Muito bom o texto, acho que você expressou claramente o que muitos crentes em Jesus vivem em suas igrejas locais. Ah, não se esqueça de escrever sobre como a MGG atua no academicismo cristão se tiver algum tempo. Com certeza vai clarear nossa percepção sobre o assunto e servir para edificação.

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