Matheus Loures

Externando aquilo que me distrai

O cristão, a esquerda e a direita

10 Comentários

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2014 é ano de eleição, junto e misturado com Copa mais um punhado de manifestações, logo vou tratar de política. Fico a matutar sobre como os cristãos devem agir em relação a tudo isso, em como fazer politica biblicamente conseguindo aplicar os conceitos de Criação, Queda e Redenção. Creio que são poucos os que o fazem. A maioria diz que temos que escolher entre a direita ou a esquerda, afirmando que são nossas únicas opções. Dentre eles estão desde não cristãos, populares do youtube, como P.C. Siqueira (http://www.youtube.com/watch?v=5pPsAAnNHl0) até protestantes acadêmicos como a Família Freston (http://www.ultimato.com.br/conteudo/de-esquerda-ou-de-direita-sejamos-inteligentes-e-cristaos#de+esquerda+ou+de+direita). Sinceramente, creio que se somos cidadãos do Reino e não temos uma visão que supere essa dualidade, estamos tendo uma visão muito limitada da realidade.

Jab de Direita

A diferença do cristianismo para essas correntes começa na vida pessoal dos indivíduos. Deve haver uma harmonia entre a política da esfera pública e a nossa ética pessoal. Neste ponto, esquerda e direita possuem projetos claros do primeiro, mas propostas atrofiadas para o segundo. A direita é guiada por um ideal de autonomia no qual deve-se dar plena liberdade para o mercado e o empreendedorismo individual. É a defesa da liberdade dos “que podem” sem imputar-lhes a responsabilidade pelo que Deus lhes deu. Crê-se que se aumentarmos o bolo (crescimento econômico) haverá mais oportunidades para todos e a sociedade será mais justa. Porém, ela pula as páginas da Bíblia quando fala da proteção ao pobre (Lv25: 35 à 38; Dt 15: 7-11), lei da respigadura(Lv 23:22) e do jubileu(Lv 25:8), pois nem Deus pode interferir na economia.  A direita é muito boa para divulgar a ética da disciplina, da virtude e do trabalho, mas péssima nos quesitos da compaixão com o mais fraco, do ajudar, do frear a ambição pessoal por amor ao nosso próximo e à criação. Devido ao seu orgulho meritocrata, tende a ver como assistencialismo barato algumas propostas bíblicas para a esfera econômica.  Tente buscar mantenedores para missionários no meio da direita que você vai entender do que estou falando.

Jab de Esquerda

A esquerda, numa certa perspectiva, parece ser boazinha e solidária, mas é guiada e motivada por um ideal de autonomia (de mesma origem da liberdade direitista) que definitivamente tira Deus da jogada e coloca o humano em seu lugar. Sua motivação para a igualdade social é a libertação de um “Eu” soberano e não a rendição a um Deus soberano, e isso faz TODA a diferença. E por causa disso é que ela carece de propostas concretas para a ética pessoal. A consequência é que na esquerda, todas as reivindicações são “jogadas políticas” de grupos que se consideram desfavorecidos, feridos em sua egolatria libertária, e que estão prestes a serem tão opressores quanto seus inimigos pela falta de um referencial que freie seu próprio “Eu” caído. O resultado é a dicotomia entre um dever macro e a falta do dever (relativização moral) em âmbito micro. A consequência disso são as afirmações do tipo “O Corpo é meu e faço dele o que eu quiser” (defensores da liberdade (tinagem) sexual).

Deveríamos buscar o equilíbrio?

Então será que o cristianismo é de centro?  Também não é por aí, pois ele se desenvolve sobre outra visão de mundo, logo: “uma categorização binária entre direita e esquerda seria praticamente impossível… [ O cristianismo] estaria além dessa polarização ao adotar posturas mais a “direita” do que a direta e mais a “esquerda” do que a esquerda, mais “tradicionais” que os tradicionais ( com argumentos mais sólidos em defesa da família ou dos valores, por exemplo) e mais “revolucionárias” que os revolucionários ( com argumentos mais sólidos na defesa do oprimido, do explorado e do excluído)”

A essência da Politica Cristã

Lá em Romanos 12:2, Paulo fala que “não devemos nos conformar com as coisas deste século (zeitgeist), mas transformar-nos pela renovação do nosso entendimento. Para experimentar qual seja a boa, perfeita e agradável vontade de Deus”. Essa é uma verdade que Gandhi popularizou de um modo mais superficial*. Nela percebemos tanto a realidade da queda como a conquista da redenção, e toda visão cristã sobre política (ou sobre qualquer assunto) tem que passar por esses conceitos, acrescentando a noção de soberania de Deus sobre tudo o que criou. Paulo não fala para se rebelar e sair quebrando bancos e Mc Donald’s por aí. Tão pouco fala para trabalhar como um louco a ponto de sacrificar as outras esferas da vida (como a família e vínculos sociais), servindo a um ídolo (Mamon) que promete falsamente oportunidades para todos mediante a sua servidão. Fala de um entendimento de um novo tempo chamado Reino de Deus, no qual existe tal submissão a Ele que procuramos honrá-lo tanto nas nossas ações individuais quanto políticas/sociais. Fala de um Reino conquistado pelo derramamento de sangue do próprio Rei. Fala de um Reino em que o amor ao Criador e ao nosso próximo nos confronta a todo tempo e inspira cada ação. Fala de um Reino de Justiça e Justificação. É uma realidade de mudança que começa na nossa vida pessoal (micro) e que devemos levar para a sociedade (macro).

Antes do cristão arrumar parcerias com orientações políticas não cristãs, ele tem que primeiro fazer seu dever de casa e pensar na implicação de certas verdades do cristianismo no âmbito da esfera pública. Tem circulado muitas inspirações teológicas que nos trazem a mente a integralidade da atuação cristã no mundo. Se você é cristão e quer entender como isso tem de influenciar sua visão política, gaste tempo (e neurônios) refletindo sobre temas como (segue indicação de autores e fontes): Shalom², Ressurreição e Esperança ³, Soberania *¹, Mordomia *², Justiça *³, Missão (Evangelho) Integral ^¹ e Reino de Deus ². Depois de entender esses termos duvido muito que você vai ficar satisfeito com as propostas bidimensionais da política que taí. Afinal, tentar encaixar a posição cristã (em questões políticas) na esquerda, centro ou direita é o mesmo que tentar rodar jogo de Playstation 3 em Master System.

 

Referências:

*A frase de Gandhi que virou moda foi: “Seja você a mudança que você quer para o mundo”

¹ Leonardo Ramos, Os Ídolos de Nosso Tempo: Cap 04 – A Cosmovisão Cristã em um mundo de Esquerdas e Direitas em Fé Cristã e Cultura Contemporânea, ed Ultimato

² Luis Roberto França de Matos – Nicholas Wolterstoff e a Ética Social em Cosmovisão Cristã e Transformação Social, ed Ultimato

³  N.T. Wright – Surprendido pela Esperança, ed Ultimato

*¹ Abrahm Kuyper – Calvinismo – Ed Cultura Cristã e Guilherme de Carvalho – Cap 02 O Senhoria de Cristo e a Missão da Igreja na Cultura e, Fé Cristã e Cultura Comtemporânea, ed Ultimato

*² Francis Schaeffer – Poluição e a Morte do Homem, ed Cultura Cristã

*³ Tim Keller – Justiça Generosa, ed Vida Nova

http://www.irmaos.com/missaonaintegra/ e www.ultimato.com.br

^² Todas as referências acima, com destaque para N.T. Wright

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10 pensamentos sobre “O cristão, a esquerda e a direita

  1. Muito bom! Que Deus continue abencoando sua vida ricamente!

  2. Matheus, o evangelho é soberano e inicialmente acima de qualquer situação política, principio fundamental e fundante e incontestável. Porém percebemos a que lado político se parece mais http://www.baciadasalmas.com/2014/a-direita-de-deus-e-sua-possivel-esquerda/

    • Nesse contexto escolher a esquerda seria tipo redução de danos, algo que definitivamente eu num gosto. Como diria o Guilherme de Carvalho oprimidos no Egito nos obrigam a escolher entre Assíria e Babilônia, mas não queremos nada menos do que Canaã.

  3. Mais um ótimo texto, parabéns! Tenho, porém, um questionamento a fazer: considerando que não há nenhum partido em nosso cenário político que se enquadre nesse quarto gênero (nem de direita, nem de esquerda, nem de centro), como o cristão deve se posicionar em relação à atividade político-partidária? Deve se abster de se filiar ou apoiar qualquer partido político? Meu receio é que, preocupados com a fidelidade à posição doutrinária por você exposta, evitando ser identificados com um dos pólos (direita e esquerda), sejamos negligentes ou frouxos no combate aos ataques perpetrados contra os valores cristãos, seja pela esquerda, seja pela direita. Não devemos, por exemplo, se opor com veemência às constantes investidas de setores do PT contra os valores da família tradicional, mesmo correndo o risco de ser tachados de direitistas?

    • Oi Felipe, esse foi o maior questionamento que este texto recebeu e com muita razão (talves escreva um post sobre isso futuramente). Precisamos dar concretude a esses ideais e não existe uma proposta como a de Kuyper no brasil por exemplo. Hoje eu acho que deveríamos agir segundo o principio de co-beligerância (fazer parcerias em prol de objetivos específicos em comum) defendido por Schaeffer, vamos trabalhar junto com a direita para defender a família, vamos trabalhar junto com a esquerda para atacar estruturas injustas, vamos trabalhar com a centro esquerda em prol do meio ambiente. Mas vamos fazer isto com a plena certeza de que nossa posição e motivação é diferente que a deles, logo estamos juntos apenas para este fim específico em comum.

  4. Escreveu exatamente o que penso sobre o posicionamento de um cristão em relação a política hoje. O que canso de ver é pessoas se dizendo cristãs se definindo politicamente como direita, enquanto arrotam absurdos sobre o amor ao próximo e a economia. Da mesma forma, a esquerda não contempla os ideais de Cristo, pois o tira da jogada. Só nos resta estudar, pedir a orientação e o discernimento ao Espírito Santo e ter bom senso. 🙂

    • Concordo com você Anna, não é fácil para um cristão se posicionar em nosso país, primeiro que a esquerda de hoje, ontem foi a de situação e de direita vice-versa. Há uma variedade de partidos que em diversas situações ora são inimigos mortais ora estão em lua de mel, ou seja, uma hipocrisia desmedida sem qualquer atitude concreta a oferecer, então, somente orando por nossas lideranças políticas pedindo muita misericórdia e sabedoria( que só Deus concede) a essa turma de engravatados enrolados.

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