Matheus Loures

Externando aquilo que me distrai


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Um Conto Alto Paraísense  

 

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Andando pelas ruas de Alto Paraíso, o Mestre atraía a atenção das pessoas que passavam. Então se dirigiu a eles: – Ouvistes o que lhes disseram os religiosos desta era: – “Não busquem fora de vocês, pois tudo o que precisam está dentro do próprio EU”. Porém vos digo que quem crer nisso entrará no caminho da auto-suficiência e depois na estrada do orgulho, por fim vocês vão ficar parecidos com esse povo que anda empinado, com a coluna reta, só para parecerem espiritualmente elevados. Ao invéz disso, olhem para o interior de vocês e sejam sinceros com o que vêem, o que existe aí dentro é digno de louvor ou de vergonha? Contudo, sejam humildes e o amor incondicional de Jah os capacitará a viverem como devem. Por isso vocês devem buscá-lo de todo coração e, em uma relação pessoal (eu-tu), lançar-se pra fora de si mesmo em direção a seus braços que oferecem algo que não existe em vocês.

Ouvindo isso alguns ficaram admirados pela sabedoria do mestre, outros, porém, sabendo que Ele estava subvertendo os costumes religiosos da região, ficaram irados e colocaram o mestre a prova:

– Bom mestre, sabemos que você é o cara e que quando você chega nas rodinhas de fogueira todos param para ouvir seus ensinamentos, no intervalo das músicas. Entretanto não seria esta idéia, de Deus ser uma pessoa, apenas uma projeção de nossas mentes a nível espiritual?

– Ó povo Alto-Paraísense… Por acaso a vossa crença que o ser-humano é divino não seria apenas uma projeção da vontade que têm de serem Deus? Da vontade de não se submeterem a nenhuma lei externa a vocês mesmos? Lá de onde eu vim teve um anjo que tentou fazer isso e se deu muito mal. Como existirá espírito comunitário se todos querem ser a própria divindade? Pelo contrário, se vocês reconhecerem que só Jah é o Deus Criador, esvaziando-se de si mesmo e se relacionando com Ele, aí passarão a  conviver uns com os outro de forma humilde.

Ao ouvirem isso ficaram revoltados, mas para não perderem sua pose de “espiritualmente elevados” mantiveram um sorriso falso e voltaram calados para suas casas. Chegando lá, acessaram suas redes sociais e postaram um monte de indiretas contra o mestre: #falsoguru.

Ao fim da tarde,na pracinha do Skate, o mestre disse àqueles que o acompanhavam:

– Tenham cautela com a elite religiosa desse lugar… Criticando a podridão de muitas igrejas eles tornam-se semelhantes a elas, passando a cobrar fortunas para uso de plantas que o Criador fez para outros fins. E ainda insistem em dizer que não são religiosos. Lembrem-se do Pai Criador que não exige a perfeição como um condicional para se achegar a Ele, pois Nós fizemos algo que era impossível para vocês fazerem, vencemos o pecado e a morte. Experimentem se relacionar com Jah baseados nessa verdade e vocês nunca mais ficarão dizendo uns aos outros: – “GRATIDÃO!”, sem refletirem no real significado dessa palavra.

Tendo dito estas palavras, o mestre comeu um bolo de cenoura com cobertura babilônica de chocolate e conversou fiado com as mães das crianças. Isto, para variar, desagradou muito à elite religiosa da cidade, que esperaram por um momento mais oportuno para “pega-lo”.


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Crente Cri-Cri x Crente Bobo

 

É pecado ser crítico? Existe algum problema em obedecer cegamente o pastor? Vou para o inferno se falar mal da igreja? Ser crítico da cultura gospel é suficiente?

Essas e outras perguntas nos vêm à mente quando analisamos a realidade vivida pela igreja. Diante desse dilema, quem nunca se deparou com a “chatura” daqueles que só sabem criticar?  Quem nunca ficou com preguiça daquele fiel, meio abobado, que parece viver sempre saltitante em sua Disneylândia evangélica? Surgem então dois tipos ideais: o crente cri-cri e o crente bobo.

O crente cri-cri tende à crítica excessiva. Nesse extremo gastas-se mais energia combatendo os podres da igreja do que edificando uma igreja saudável. O grande risco é aquele velho jargão nietzchiano, adorado pela galera do black metal, de que quando olharmos para o abismo, o abismo olhará para dentro de nós. Logo, o crente cri-cri pode gerar um quadro semelhante ao de muitas pessoas envolvidas nas lutas contra as opressões sociais de raça e gênero, o ressentimento. Este quadro se desenvolve quando a identidade é definida por aquilo que se combate, sendo então estabelecida uma relação de dependência com o problema. Logo, a superação do mal significaria a perda do que se é, ou daquilo que se pensa ser. Por isso o crente cri-cri tem dificuldades de falar sobre o cristianismo sem destilar seu veneno contra os inúmeros vacilos de nossa subcultura evangélica. Mas nem tudo está perdido, pois existe uma vacina! Basta ser mais apaixonado pela beleza do que incomodado pela feiúra, mais sedento de conhecer as Escrituras do que indignados com a superficialidade bíblica das igrejas, mais fascinado com a Shalom e pelo caráter justo de Deus do que incomodados pela injustiça. Adoração é solução, caminho de liberdade.

O crente-bobo, no outro extremo, tende à ingenuidade. Despreza-se a influência da Queda quando se analisa a igreja. É ignorado o fato de que nossas lideranças, nossos modismos e nosso ethos igrejeiro podem estar plenamente contaminado pelo pecado. Nesse grupo é comum encontrar o “crente empolgado”, crente que adora gritar “uhuu” e também aquele que vive de jargões! Ao crente-bobo é ensinado que ser crítico é ser rebelde e sendo rebeldia um pecado pior o que a feitiçaria, ele aceita. É por essa falta de discernimento que temos dado poder à líderes como Cleôncio*, Gerivaldo*, Vampeta* e Ludovico* (* substitua por qualquer líder evangélico em evidência que você não admira). A ingenuidade gera  “ovelhas lobotomizadas”, marionetes, nas mãos de líderes personalistas que constroem um verdadeiro império em torno de si mesmo. A vacina é aquele velho e saudável espírito bereano, de conferir nas Escrituras se “é isso mesmo que o pastô falô” (Atos 17:11). Doses de cultura geral, de imersão em aspectos da graça comum, ajudam bastante também.

O fato é que não temos pra onde correr, se não ter senso crítico está fora de cogitação, não podemos esquecer os perigos da crítica. Mas qual seria um bom exemplo da harpombamonia de ambas? Jesus Cristo, diria John Stott. Em seu livro “O que Cristo pensa da Igreja”, ele usa como exemplo a análise que Jesus faz das igrejas através das cartas em Apocalipse (Cap 2 e 3). Cristo ao analisar as comunidades cristãs aponta suas características positivas e negativas. Por isso dizemos SIM, é possível um equilíbrio. Pois, se discernimento ecoa com senso crítico, a leveza encontra melhores condições para florescer no coração daquele que é como criança. É por isso que nosso Messias ensina: Sejais astutos como a serpente e mansos como a pomba (Mt 10: 17)!

E para terminar deixo uma paráfrase de Chê Guevara para vocês: “Há que ser crítico, mas perder a ternura, a humildade e a leveza jamais!”


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Ecologia Bíblica – Introdução

“Do Senhor é a terra e tudo o que nela existe, o mundo e os que nele vivem” Sl 24:1

A questão ambiental está sempre presente nos noticiários, debates eleitorais e brigas (cheias de mimimi) nas redes sociais. Como em quase todas as polêmicas da esfera política, o debate tende a se polarizar entre duas posições que passam a se tratar de uma forma bruta e hostil. Como cristãos, devemos ser críticos a respeito de todas as ideologia¹, pautando nossas posições pelo que a Bíblia ensina e evitando equívocos de ambos os lados.

Para começar a entender quão importante é a questão ambiental na Bíblia, basta começar do começo. O primeiro versículo bíblico diz: “No Princípio criou Deus os céus e a terra” Gn 1:1. Logo no princípio do texto Deus já deixa claro o que é importante para ele, toda a criação². E sua alegria com o mundo criado continua nos versículos seguintes Gn 1: 13, 18, 21, 25, no final de cada dia Ele admira sua obra e avalia que o resultado ficou bom. Logo depois, Deus cria o ser-humano e finaliza seu trabalho. Neste momento Ele observa tudo o que fez nos 6 dias de trabalho e chega a satisfeita conclusão de que seu universo criado tinha ficado MUITO BOM!!! Resumindo a idéia, o planeta onde habitamos, além de todo o universo, e uma obra prima do Eterno.

Falar de ecologia na Bíblia também é necessário, pois através da Criação Deus revela algo de si para os seres humanos. “Porque os atributos invisíveis de Deus… claramente se reconhecem , desde o princípio do mundo, sendo percebido por meio das coisas que foram criadas.”(Rm 1: 20) A isto, os teólogos deram o nome de Graça Comum, que é a revelação e a ação de Deus sobre, definitivamente, tudo o que criou. Os salmos também fazem inúmeras conexões entre a natureza e a fé no Senhor (ex: Sl 19, Sl 104). Eles também mostram como Deus cuida da Terra “Tu visitas a Terra e a regas, tua a enriqueces fartamente” Sl 65:9, dos animais “Tu preserva tanto homens como animais” Sl 36:6 (ver tb 145:9) e como toda a criação de responder ao amor e cuidado do Criador “Todo ser que respira louve ao Senhor.” Sl 150:6  

Mas qual é nós? Qual nosso papel em tudo isso? O que significa sermos mordomos de Deus?

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¹ David Koyzis- Visões e Ilusões Políticas, Uma análise e crítica cristã das ideologias contemporâneas ed Vida Nova

² Timóteo Carriker – A Visão Missionária na Bíblia ed Ultimato


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Mordomia

Mordomia

Antes de falar de mordomia é muito necessário falar sobre autoridade e poder. Eita duas palavrinhas polêmicas… Rola por aí (inclusive no Senhor dos Anéis) um papo de que se trata de dois conceito demoníacos que devem ser banidos do mundo para que os humanos possam conviver em harmonia, sem que alguns dominem sobre outros… Porém, contudo, entretanto, logo no comecinho da Bíblia (Gn 1:26) Deus ordena que o ser humano domine (exerça poder e autoridade) sobre toda natureza criada (Sl 8: 5 à 8). E que tipo de domínio seria esse? Alguns ambientalistas, que não vão com a cara do cristianismo, dizem que essa passagem ensina que o homem pode explorar a natureza do jeito que lhe der na cabeça. Provavelmente eles nunca leram Gn 2:15: “O Senhor Deus colocou o homem no jardim do Éden para cuidar e cultivá-lo”… E é ai que, elegante como um lord inglês, surge nosso amigo, o conceito de MORDOMIA!!!!

Pensemos em um mordomo de uma mansão, pode ser o Jaime do antigo comercial do suco Tang (Quero +!!!), imagine que o proprietário da casa viaje e deixe a casa aos totais cuidados do mordomo. O mordomo terá pleno poder sobre o lugar, cuidará das constantes manutenções que uma casa exige. Ficará responsável para que os serviços da faxina e da jardinagem sejam bem feitos, irá liderar outros trabalhadores exercendo autoridade. Mas fará tudo isso com qual finalidade? Agradar a si mesmo? Não! Ele executará cada função pensando em agradar o dono da mansão. Ele representa o proprietário da casa em sua ausência, é muita responsabilidade. O mordomo precisa ser alguém extremamente confiável, por isso que não é fácil achar quem exerça bem essa função e quando as famílias ricas encontram um bom, é comum vê-lo passar toda a vida servindo e administrando aquela casa.

Então voltando à Criação… Deus nos deixou como seus representantes neste belo jardim, ele não é nosso e sim, Dele. Como mordomos do planeta que ele criou, somos incumbidos de cuidar e cultivar. Nossa primeira tarefa envolve proteger e amar aquilo que ele disse que era bom (Gn 1: 13, 18, 21 e 25). É reconhecer que tudo que foi criado, ele gostou e decidiu salvar (Jo 3:16 e Cl 1: 16 à 20). A segunda tarefa tem muito a haver com aquilo que os teólogos chamam de mandato cultural. Deus nos deu a matéria prima e a partir daí, geramos desenvolvimento cultural e tecnológico. Fazemos plantações e jardins ornamentais. Criamos instrumentos musicais, vara de pescar arco e flecha. Construímos casas!! O Deus Criador nos fez criativos, exatamente por sermos sua imagem e semelhança e por isso, nós o glorificamos quando usamos a criatividade no manejo de sua criação. O que mantém a harmonia entre o cuidar e cultivar é aquele papo de sustentabilidade. Francis Schaeffer já dizia que os problemas ambientais acontecem devido a nossa ganância e a nossa pressa. Eles existem por querermos ter mais do que precisamos e por ignorarmos o ciclo de reposição da natureza. Mas nossa relação com a criação não para por aí ela envolve o desfrutar e se alegrar na criação, existe um lado estético de admiração, lazer e bem-estar (disso falaremos mais adiante).

Uma questão muito curiosa é o fato de algumas passagens bíblicas afirmarem que a própria natureza chora, geme e sente dores (Os 4:3 e Rm 8: 19 à 25) por estarmos lidando com a criação de Deus de uma forma totalmente independente de Sua vontade. Portanto, com temor, devemos orar “Senhor, sonda-me e vê se há em mim algum caminho mal” (SL 139) nos abrindo para a possibilidade Dele nos corrigir sobre nossa responsabilidade como mordomos daquilo que criou. É por isso nós, Filhos de Deus, deveríamos ser os primeiros a questionar as atrocidades contra o meio ambiente, jardim de nosso Senhor.


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A Beleza da Gratidão e a Gratidão à Beleza

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Imagina que alguem te deu um presente, alguem que poderia estar fazendo um zilhão de outras coisas decidiu criar uma moldura no tempo para expressar o quanto gosta de você. Espera-se daquele que recebeu o presente uma resposta, o desabrochar da gratidão. Agora pense em como é absurdo se a pessoa dirigisse a resposta ao próprio presente em si: “muito obrigado, ó divina caixa de chocolates, pois foi do seu agrado apresentar-se a mim para que eu saboreie de seus misteriosos e transcendentais sabores”. Pois é… isso é o que fazemos quando desfrutamos do Belo, na natureza ou nas artes, e não reconhecemos que se trata de um presente do próprio Criador, para “nooossa alegria” (literalmente).

Portanto, não vamos nos perder na tendência do “sou grato à natureza, sou grato à arte, elas alimentam minha alma com seu poder libertador”. A experiência da beleza é somente uma janela para se avistar Aquele que esta alem da criação, de Quem flui tudo que é belo e libertador. Entretanto, isso a concede uma nobre importância, uma valorização de tudo que é bonito, uma devida reverência nos momentos de beleza, pois Deus esta comunicando e nos dando algo de si, pelo qual nossa alma esta sedenta.

Vamos pisar no freio, desacelerar nossas vidas, ressignificar nossos conceitos de lazer e bem viver, para que nossa percepção seja aguçada e nossa alma tocada por tudo o que é belo. Para que desfrutemos da intensidade do pôr do sol, do ritmo das ondas do mar, da espontaneidade do vento que balança os coqueiros, do refrigério da cachoeira; da intensidade dos brincantes e foliões, do ritmo dos tambores, da espontaneidade de um palhaço, do refrigério de uma boa música.Vamos fechar os olhos… abraçar a tudo isso, vivenciar com intensidade… e ao abrir de nosso olhar ver apenas o Pai das Luzes… provavelmente nos prostraríamos, mas quem sabe conseguiríamos correr e nos atirar em seus braços… novamente não enxergando, mas agora por causa das lágrimas… guardando o ultimo fôlego para dizer: “Obrigado, muito obrigado… foi tudo lindo!” . Enfim, as coisas são muito mais pessoais do que se pensa, mas muito….


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A Maldita Gravidade Gospel

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Glossário Zuringuiano (para entender o texto):

Buteco – Esfera pública de nossa sociedade. São os lugares nos quais os mais variados grupos se encontram, conversam e convivem juntos. Escolas, faculdades, lanchonetes/restaurantes, filas de banco, festas, pontos de ônibus, eventos culturais/esportivos, academias, espaços políticos etc… Buteco não é sinônimo de bar, mas os bares geralmente são um tipo de buteco :p

Infinito Particular – Clara referência à música de Marisa Monte. É a bagagem cultural de cada pessoa. Se expressa no tanto que ela conhece o mundo criado por Deus e explora suas possibilidades.

Maldita Gravidade Gospel (MGG)Força centrípeta, que puxa as pessoas para o centro das igrejas (no sentindo meramente institucional), fazendo-as orbitarem no “planeta igrejeiro” e impedindo que os cristãos respirem outros ares. É a tendência de só pensar e falar no povo da igreja, nas picuinhas da igreja, nas programações da igreja.

Dessalinização da FéClara referência a Mt 5 (Vós sóis o sal da Terra). É quando em contato com o buteco (esfera pública) preferimos relativizar algum princípio bíblico em prol de não gerar atrito com os demais butequeiros. A Dessalinização da Fé costuma andar junta com uma certa frustação com a igreja.

Agora sim, vamos lá…

Se tem uma coisa que sempre me deixou agoniado é andar só no meio de crente. Aquela falação sobre as coisas do dia-a-dia da igreja, sobre as programações que satisfazem as massas e, principalmente, sobre a vida sentimental do povo que a frequenta. Acho que não serviria para morar em base missionária e nem tampouco para trabalhar full-time dentro do espaço físico de igrejas, pois isso me provoca uma “claustrofobia existencial”. Nessas horas me vem a memória os momentos de buteco e concluo que o infinito particular dos não crentes tendem a ser mais desenvolvido. De modo geral, falam com mais propriedade sobre cultura e política, já viveram mais coisa na vida. Conhecemos e repetimos, roboticamente, passagens como Luz do Mundo e Sal da Terra, exaltamos o significado de “igreja” (ecclésia), como assembleia dos chamados para fora, mas eis que surge a Maldita Gravidade Gospel e se manifesta como inimiga de nossa fé.

Afinal o que nos mantem tão presos no nosso gueto igrejeiro? A comodidade, a falta de tempo/prioridade e a “guerra espiritual” certamente influenciam. A sequencia é tipo assim, é mais seguro conviver com pessoas que pensam parecido, que não vão nos confrontar e achar que a gente tá falano chinês o tempo todo. Viver isso é um mandamento bíblico (1Pe 2) e por ser difícil nossa carne (no sentido de tender ao pecado) vai sempre nos influenciar para não frequentar os butecos. Finalmente, para além da carne existe o Demônio que não quer perder domínio sobre o buteco. Fazemos bem em orar todo dia: “Pai que teu Espírito me leve a exalar o perfume de Cristo e me use para refletir sua luz nos butecos que frequentarei neste dia, Amem” . Uma das maiores armas da Maldita Gravidade Gospel é o excesso de atividades da igrejas, como bem já dizia o sábio Vovô Sttot. Vários cultos, reuniões de ministérios, oração, mutirões para melhorias do espaço físico, bazar do grupo de levitas mirins, células etc… Tudo acaba com o tempo do crente para convívio com o resto da sociedade… Bem pelo menos assim o crente não peca né? Ou melhor, pelo menos assim ele não comete aqueles “pecados mais cabeludos”.

( Ah, eu ia escrever sobre como a MGG atua no academicismo cristão com nossos teólogos isolados em suas torres de marfim, muitas vezes escrevendo sobre missionalidade… mas não tenho espaço aqui!)

Muitas vezes ficamos tão presos no pequeno “planeta igreja” que cultivamos um infinito particular entendiante. Não conhecemos a imensidão de mundo criado por Deus, nem suas potencialidades. Sem uma boa compreensão entre fé e cultura não exploramos as matérias primas que Deus colocou em seu jardim. Entretanto, os artistas, os ecologistas, os cientistas e os filósofos o fazem. Estes tem desvendados certos segredos plantados na criação (graça comum), algo como um “sorriso escondido de Deus”*. Mas nós estamos com feitiço da cegueira pra “ler” o mundo de fora da igreja. Quando presencio a maioria das manifestações dos crentes nos butecos, já fico com frio na barriga e com medo de passar “vergonha alheia com o que será dito”. Nessa ultimas eleições, um grande exemplo disso eram os post de facebook: “não entendo cristão que vota no PT”.*¹

Quem defende a igrejização do crente, teme que ele sofra a dessalinização da fé. Sim, esse risco é constante, pois nos butecos da vida é tentador sacrificarmos algum princípio bíblico para ganhar a aceitação das pessoas. Em boa parte das vezes a dessalinização da fé é temperada com pitadas de frustração com a igreja. Feridas reais, mas não saradas, protegidas com o “band-aid” do rancor. O antídoto para tudo isso é o fortalecimento de nossa Fé e relação com Deus. Para isso, a melhor ferramenta é a intensa amizade com outros cristãos, aquela que verdadeiramente nos aproxima dele e nos encoraja a viver o Reino, que o povo do buteco não conhece. Claro que é um problema só existir relacionamentos “pra dentro”, mas temos de aprofundar nossa comunhão EM CRISTO, fortalecer mutuamente a Fé. Afinal, é isso que nos capacita para encarar os desafios da butecagem. Tudo muito tênue e desafiador, mas você quer vida fácil? Então vire mais um bêbado de balada ou mera ovelha massificada, porém não leve a sério a identidade e a missão de Cristo, a “santa mundanidade” segundo Sttot.

Ser cristão é viver constantemente esta tensão de habitar no mundo criado por Deus, mas manchado pela queda. É junto com todos os seres humanos contemplar a “Graça Comum”, mas sentir-se responsável por anunciar e assumir as consequências da “Graça Específica”, a espada (Mt 10:34). É a dança entre o andar com todos, mas ser separado para Deus; entre o misturar-se, mas não diluir-se. É romper a Maldita Gravidade Gospel para habitar nos butecos da vida, mas sempre com aquela certeza que vivemos algo que só quem experimentou Cristo vive. É encarar este desafio, com o auxílio do Espírito, para demonstrar essa exclusividade de forma amorosa e humilde. Negar a tensão, para qualquer um dos lados, é viver um cristianismo raquítico.

* Título de um livro de John Piper

*¹  Tenho inúmeras críticas ao PT, mas considero a afirmação ingênua por achar que ela traduzia a disputa como se o segundo turno fosse entre o 45, azul, de Deus e o 13, vermelho, do Diabo. Entendo que a melhor comparação teológica para o segundo turno fosse o 45 de Mamom vs o 13 de Baal. Como o foco do texto não é política vou parar por aqui…


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Os Arrais

 

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Vez ou outra Deus nos surpreende através da inspiração artística de alguns dos seus Filhos. A Obra dos Arrais é mais um desses presentes que Ele nos dá. Com uma pegada pop, eles me lembram um Palavra Antiga sem o rock. Algo meio cult, meio hipster, pós-“a little bit”-gospel, mas com letras extremamente “crentes”, bíblicas. Definitivamente, esse é o diferencial da dupla de irmãos.

https://www.youtube.com/watch?v=jl61mbxlSWQ

O legal dessa música aí é a letra narrativa. É tão bom escutar músicas que não começa com EU (seu sinto, eu quero, eu amo, eu peido, eu isso, eu aquilo). O legal da arte é te transportar para outro lugar, nos dar acesso a uma outra experiência. Por isso valorizo esses artistas que cantam narrando a experiencia de outra pessoa, como o Sthenio Marcius faz tão bem.